Vício em jogos online: entenda como as bets podem causar dependência

As apostas esportivas on-line, conhecidas como bets, ganharam espaço no cotidiano dos brasileiros nos últimos anos. Pesquisa Quaest aponta que 29% dos brasileiros dizem ter o costume de fazer apostas esportivas pela internet. Segundo especialistas, o vício em bets, que podem ou não ser esportivas, já é considerado problema de saúde pública e tem Classificação Internacional de Doenças (CID): Transtorno do Jogo.
“Quando falamos de transtorno de jogo, falamos de uma pessoa que está jogando de forma frequente, persistente e que começa a ter prejuízos, tanto financeiros, familiares, quanto emocionais. E mesmo assim ela não consegue parar”, comenta o Dr. Vinícius Andrade, psiquiatra.
Quais os sinais que podem indicar vício em jogos?
O transtorno de jogo não é um diagnóstico novo. Ele feito desde os anos 1980. Os problemas com os jogos de azar já assolam várias famílias há décadas.
“Hoje damos mais um enfoque porque talvez a tecnologia aumentou essa exposição e oferta, que antes era uma coisa muito mais discreta”, diz o médico.
Ele explica também que o jogador tem um caminho. Muitas vezes, ele começa com pequenas exposições e momentos de ganho e de vitória. E isso pode levar poucos ou muitos anos. Então, começa cada vez a apostar mais vezes, com valores mais altos.
“Além de ter esse ganho de aumento de valores, ele começa a ter prejuízos e não conta para a família. Então envolve sintomas como mentir sobre a frequência do jogo e a quantidade que ele realmente perde. O jogador começa a ter percepção dessa perda, só que continua nessa negação. O sintoma é igual à fissura química. Existem alterações cerebrais que estão associadas e por isso entra no código de doença mental”, afirma o Dr. Vinícius.
É muito comum, também, estas pessoas apresentaram ansiedade, abuso de substâncias químicas e depressão.

Como funciona a mente de um viciado em apostas?
Exames de neuroimagem mostram que pessoas com transtorno do jogo apresentam alterações em áreas cerebrais relacionadas à recompensa (estriado ventral), tomada de decisão (córtex pré-frontal), controle dos impulsos e processamento de perdas, o que ajuda a explicar por que continuam apostando mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares e emocionais.
O cérebro passa a buscar a recompensa o tempo todo. Quando a pessoa faz uma aposta e ganha, o órgão libera dopamina, um neurotransmissor relacionado à sensação de prazer, motivação e aprendizado. Essa descarga de dopamina faz o cérebro “registrar” que aquele comportamento vale a pena ser repetido.
O cérebro, por sua vez, responde de forma ainda mais intensa quando a recompensa é imprevisível. Esse mecanismo é chamado de “reforço intermitente” e é considerado um dos mais poderosos para gerar comportamentos repetitivos. Por isso, uma pessoa pode passar horas apostando mesmo perdendo dinheiro.
Com o tempo, regiões do cérebro responsáveis pelo planejamento e pela tomada de decisões, principalmente o córtex pré-frontal, passam a exercer menor controle sobre o comportamento.
Assim como ocorre em outras dependências, o cérebro se adapta aos estímulos. Aquilo que antes gerava emoção deixa de ser suficiente. E quando não consegue jogar, o cérebro sente falta daquele estímulo. Em muitos casos, a pessoa aposta novamente apenas para aliviar esse desconforto, e não mais pelo prazer de jogar.
Como se livrar do vício das apostas?

Assim como acontece em outras dependências, o tratamento do transtorno do jogo envolve uma abordagem multidisciplinar. O primeiro passo é reconhecer que o problema existe e procurar ajuda especializada.
O tratamento começa com uma avaliação completa do paciente para identificar a gravidade da dependência e a presença de outros transtornos associados, como ansiedade, depressão ou uso abusivo de álcool e outras drogas.
“É muito comum que o transtorno do jogo esteja associado a outros problemas de saúde mental. Por isso, o tratamento precisa olhar para o paciente de forma integral e não apenas para o comportamento de apostar”, explica o especialista.
A principal abordagem é a psicoterapia, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Esse tipo de tratamento ajuda o paciente a identificar pensamentos distorcidos, como a crença de que “está perto de ganhar” ou de que conseguirá recuperar todo o dinheiro perdido, além de desenvolver estratégias para controlar os impulsos e lidar com situações que despertam a vontade de apostar.
Outro aspecto importante é a identificação dos chamados gatilhos, que podem ser emoções, situações ou ambientes que estimulam o comportamento compulsivo. Estresse, ansiedade, solidão, dificuldades financeiras e até o fácil acesso aos aplicativos de apostas podem favorecer recaídas.
Sim, em alguns casos, o psiquiatra também pode indicar o uso de medicamentos. Embora não exista um remédio específico aprovado para tratar o transtorno do jogo, antidepressivos, estabilizadores do humor ou antagonistas opioides podem ser utilizados para controlar sintomas associados e reduzir a compulsão em pacientes selecionados.
O apoio da família também faz diferença durante o tratamento. Além de oferecer suporte emocional, familiares podem ajudar a estabelecer limites, como restringir o acesso a dinheiro, bloquear aplicativos de apostas e incentivar a continuidade do acompanhamento profissional.
“O tratamento é um processo. Assim como em outras dependências, podem ocorrer recaídas, mas isso não significa fracasso. Com acompanhamento adequado e apoio, é possível recuperar o controle sobre a vida e reconstruir os vínculos familiares, profissionais e financeiros”, ressalta o psiquiatra.
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