Qual é o novo tratamento para câncer de pâncreas?

Um novo medicamento apresentado recentemente em um importante congresso norte-americano de Oncologia, o ASCO, vem despertando grande entusiasmo entre especialistas e trazendo novas perspectivas para pacientes com câncer de pâncreas, um dos tumores mais desafiadores.
O destaque, que fez os médicos presentes aplaudirem de pé quando a pesquisa foi apresentada, ficou por conta do daraxonrasib, uma terapia-alvo inovadora que demonstrou resultados promissores no tratamento de pacientes com doença metastática que já haviam apresentado falha aos tratamentos convencionais com quimioterapia.
De acordo com o Dr. Pedro Uson, oncologista do Einstein Hospital Israelita e integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer, o avanço chamou atenção da comunidade científica porque, diferentemente de outros tipos de câncer, o tumor de pâncreas passou décadas sem grandes inovações terapêuticas.
“Se formos olhar para os últimos 10, 15 ou 20 anos, não tivemos avanços realmente significativos no tratamento do câncer de pâncreas no sentido de medicamentos inteligentes, terapias capazes de atacar diretamente o driver da doença. Isso já acontece em câncer de pulmão, mama e próstata, mas no câncer de pâncreas ainda não existia algo realmente promissor nesse sentido”, explica.
Segundo o especialista, o estudo ganhou grande repercussão justamente porque conseguiu atingir uma das principais alterações biológicas responsáveis pelo desenvolvimento da doença em um cenário no qual os pacientes mais precisam de inovação: a doença avançada.
“O que tornou esse resultado tão impactante não foi apenas o fato de o estudo ser positivo, mas porque finalmente conseguimos atacar diretamente o driver do tumor em pacientes com doença metastática, que infelizmente representam a maioria dos diagnósticos. Esse foi o grande avanço que fez milhares de médicos se levantarem e aplaudirem a apresentação”, afirma.
Por que o câncer de pâncreas ainda é tão difícil de tratar?
O câncer de pâncreas continua sendo um dos tipos de tumor com pior prognóstico, principalmente porque a maior parte dos pacientes recebe o diagnóstico em estágios avançados.
Isso acontece, geralmente, por conta dos sintomas inespecíficos, como dor abdominal, perda de peso, alterações intestinais, cansaço e desconfortos digestivos que podem ser confundidos com outras condições clínicas.
Além disso, existe uma característica biológica que torna a doença especialmente resistente aos tratamentos disponíveis.
“O câncer de pâncreas produz uma reação inflamatória intensa, formando um microambiente tumoral muito denso, rígido e pouco permissivo à ação do sistema imunológico. Por isso, imunoterapias que revolucionaram o tratamento de outros tumores, como melanoma, câncer de pulmão e câncer de rim, praticamente não funcionam nesses pacientes”, detalha o médico.
Medicamento melhora sobrevida, sintomas e qualidade de vida

Outro ponto que chamou atenção nos resultados apresentados foi que o novo tratamento não demonstrou apenas aumento na sobrevida global dos pacientes. Segundo o especialista, os benefícios vão além do controle da progressão da doença.
“Não estamos falando apenas de viver mais tempo. O medicamento mostrou capacidade de reduzir o tumor, impedir o crescimento e a formação de novas metástases. Além disso, houve melhor controle de sintomas e menor deterioração da qualidade de vida quando comparado à quimioterapia convencional”, explica o Dr. Pedro.
A melhora no controle da dor também foi um dos aspectos destacados no estudo
“A dor é um dos principais desafios no câncer de pâncreas avançado porque o tumor frequentemente compromete nervos, vasos e estruturas importantes da região abdominal. O fato de o medicamento também ajudar nesse controle sintomático é extremamente relevante na prática clínica”, diz o médico.
Como funciona o novo tratamento?
O daraxonrasib representa uma nova geração de terapias-alvo personalizadas.
A molécula atua bloqueando uma proteína chamada KRAS, considerada uma das principais responsáveis pelo desenvolvimento e crescimento de diferentes tipos de câncer.
No caso do câncer de pâncreas, aproximadamente 90% a 95% dos pacientes apresentam mutações no gene KRAS, o que torna essa proteína um alvo extremamente importante.
“Trata-se de uma molécula com um mecanismo de ação completamente inovador. Ela forma uma estrutura que bloqueia diretamente a sinalização celular dessa proteína quando ela está ativada. Não estamos falando dos inibidores tradicionais como outros medicamentos já conhecidos no mercado. É uma nova classe terapêutica”, explica.
O que esse avanço representa para o futuro da Oncologia?
Para o especialista, o medicamento representa mais do que uma nova opção terapêutica: ele inaugura uma nova etapa da medicina personalizada.
“O daraxonrasib provavelmente é o primeiro de uma série de medicamentos que veremos surgir nos próximos anos. Ele abre caminho para uma nova geração de terapias direcionadas ao KRAS mutado, não apenas no câncer de pâncreas, mas também em outros tumores, como câncer de pulmão e câncer colorretal”, afirma.
Atualmente, o tratamento foi estudado em pacientes com doença metastática que já haviam apresentado falha à quimioterapia, mas novos estudos devem avaliar o uso da molécula em diferentes fases da doença.
“No futuro, devemos ver esse medicamento sendo combinado com quimioterapia, imunoterapia, vacinas, anticorpos conjugados e outras moléculas direcionadas. Também existe a possibilidade de utilização em cenários pré-operatórios, manutenção e até prevenção”.

Quando esse tratamento pode chegar ao Brasil?
Embora a expectativa seja de aprovação regulatória rápida nos Estados Unidos, o cenário brasileiro ainda traz desafios importantes.
Segundo o especialista, a aprovação da agência reguladora não garante automaticamente que o medicamento estará disponível aos pacientes.
“No Brasil, aprovar na Anvisa não significa necessariamente acesso imediato. Depois disso, ainda existem processos de incorporação na saúde suplementar, avaliação pela ANS, análise pela Conitec para o SUS, precificação e toda a questão regulatória. O desafio não é apenas aprovar, mas fazer o medicamento chegar ao paciente na ponta”.
Mesmo com essas barreiras, a comunidade médica acompanha o avanço com bastante expectativa.
“Assim como aconteceu com as primeiras imunoterapias anos atrás, esse medicamento está abrindo uma nova era na medicina personalizada. Estamos vendo o nascimento de uma nova classe terapêutica com enorme potencial para transformar o tratamento de vários tipos de câncer nos próximos anos”, finaliza o médico.
O que é câncer de pâncreas?
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer, o tumor de pâncreas é um tipo de neoplasia maligna que normalmente não leva ao aparecimento de sinais e sintomas nos estágios iniciais, e apresenta alta taxa de mortalidade em razão do diagnóstico tardio.
O risco de câncer de pâncreas aumento com idade avançada. Ele é raro antes dos 30 anos, tornando-se mais comum a partir dos 60.
Dentre seus fatores de risco estão obesidade, diabetes tipo 2, tabagismo, consumo excessivo de álcool, baixo consumo de fibras, frutas, vegetais e carnes magras, além de condições genéticas ou hereditárias, como síndrome de Lynch, câncer pancreático familial e pancreatite hereditária.
